Coping religioso espiritual (CRE)

Marcelo Borges

O coping religioso espiritual é bastante estudado por pesquisadores que se dedicam à temática de crenças, práticas e experiências espirituais/religiosas (E/R). A palavra coping é proveniente da língua inglesa e não possui tradução literal para a língua portuguesa. É utilizada em diferentes contextos, por exemplo, em algumas linhas teóricas da psicologia, por isso é necessária uma compreensão do contexto conceitual. Para evitar confusões, sempre é necessário se referir ao coping, quando considerada a dimensão E/R, como Coping Religioso Espiritual ou CRE. Neste caso, pode ser entendida como “enfrentamento”, “lidar com”,  “manejar” e até “adaptar-se a”(1). Ou seja, quando o indivíduo se volta à religião/espiritualidade para lidar com situações estressantes cotidianas. Portanto, Coping Religioso Espiritual é a utilização das crenças e práticas religiosas e espirituais como recurso visando facilitar a solução de questões e para prevenir ou aliviar consequências emocionais negativas de circunstâncias estressantes da vida(1) e seus objetivos coadunam com os cinco objetivos-chave da religião (busca de significado, controle, conforto espiritual, intimidade com Deus e com outros membros da sociedade e transformação de vida. Além de busca por um bem-estar físico, psicológico e emocional.

Existem três meios pelos quais a religião pode estar envolvida no coping. Pode ser em parte, contribuir ou ser resultado do processo de coping. O Coping Religioso Espiritual pode ser positivo ou negativo. O coping positivo proporciona benefícios ao paciente como, por exemplo, procurar amor ou proteção em “Deus”, maior conexão com forças transcendentais, conforto na literatura religiosa, abertura para perdoar e ser perdoado, entre outros. O coping Religioso Espiritual negativo proporciona prejuízo ao paciente, como questionar a existência de “Deus”, delegar a resolução de suas questões, compreender o evento estressor como punição ou castigo e até influencia exclusiva de forças do “mal”. Resultados positivos de CRE já foram descritos em estudos relacionados à dor, debilidade física, doenças cardiovasculares, doenças infecciosas e câncer e em pacientes hepatopatas usuários de álcool(2, 3). Alguns estudos apontam que o melhor enfrentamento está relacionado à pacientes que frequentam com regularidade os serviços religiosos(4).

Inicialmente foram propostos três estilos de coping Religioso Espiritual(5). O estilo auto-direção que considera o indivíduo ativo e “Deus” mais passivo quando consideramos a resolução dos problemas. Baseia-se na premissa de que os seres humanos receberam de “Deus” liberdade e recursos para dirigirem suas próprias vidas. O estilo delegação, o paciente passivamente espera que “Deus” apresente a solução de seus problemas, outorgando-lhe toda a responsabilidade. O estilo colaborativo denota que tanto o paciente quanto “Deus” são ativos na resolução dos problemas, havendo co-responsabilidade e e parceria. Posteriormente, um quarto estilo denominado súplica que caracteriza-se por uma tentativa ativa do indivíduo de influenciar a vontade de “Deus” para a solução de seus problemas mediante petições e rogos foi incorporado, assim como um estilo adicional denominado renúncia que caracteriza-se por uma escolha ativa do paciente em renunciar às suas vontades em favor da vontade de “Deus” também foi proposto(6). Este estilo difere do estilo colaborativo pois há um aspecto sacrificial na renúncia. Também difere do estilo delegação uma vez que há um caráter ativo na renúncia e difere do estilo súplica, pois não há uma tentativa de influenciar a vontade de “Deus”.

E dentre os estilos de coping Religioso Espiritual, os estilos auto-direção, colaboração e renúncia são positivos. E os estilos delegação e súplica são negativos. Contudo, o estilo de súplica pode possuir uma classificação positiva e negativa, tendo em vista que a análise fatorial apontou que alguns ítens carregaram na dimensão positiva e outros na dimensão negativa. A diferença, portanto, residiria na proposta do pedido. Caso o indivíduo suplique pelo apoio de “Deus” tentando modificar a vontade divina segundo a sua própria vontade, a configuração seria de CRE negativo. Na outra mão, se ela suplica pelo apoio de “Deus” respeitando a vontade divina em detrimento da individual, configura-se CRE positivo(7).

Existem diversas escalas que avaliam o CRE: Religion Problem-Solving Scale, Religious Coping Index, The Ways of Religious Coping Scale, Red Flags Religion Coping Scale, RCOPE e suas formas abreviadas. Em português temos a Escala CRE e sua forma abreviada e a Escala Breve de Enfrentamento Religioso.

A RCOPE derivada da escala COPE abrange os cinco estilos de coping. Fundamentada na cultura religiosa norte-americana de origem judaico-cristã com a maioria da população protestante. Porém, demonstrou confiabilidade em outras culturas e deu origem à Escala CRE e diversos estudos utilizam estas escalas. Enfim, compreender as formas como o indivíduo utiliza seus recursos E/R pode facilitar o alinhamento destas questões e as intervenções propostas na prática clínica cotidiana.


Referências

1. Panzini RG, Bandeira DR. Escala de coping religioso-espiritual (Escala CRE): elaboração e validação de construto. Psicologia em Estudo. 2005;10:507-16.

2. Koenig HG. Religion and medicine IV: religion, physical health, and clinical implications. Int J Psychiatry Med. 2001;31(3):321-36.

3. Martins ME, Ribeiro LC, Feital TJ, Baracho RA, Ribeiro MS. Coping religioso-espiritual e consumo de alcoólicos em hepatopatas do sexo masculino. Revista da Escola de Enfermagem da USP. 2012;46:1340-7.

4. Pargament KI, Koenig HG, Tarakeshwar N, Hahn J. Religious coping methods as predictors of psychological, physical and spiritual outcomes among medically ill elderly patients: a two-year longitudinal study. J Health Psychol. 2004;9(6):713-30.

5. Pargament KI, Kennell J, Hathaway W, Grevengoed N, Newman J, Jones W. Religion and the Problem-Solving Process: Three Styles of Coping. Journal for the Scientific Study of Religion. 1988;27(1):90-104.

6. Wong-Mcdonald A, Gorsuch RL. Surrender to God: An Additional Coping Style? Journal of Psychology and Theology. 2000;28(2):149-61.

7. Panzini RG, Bandeira DR. Coping (enfrentamento) religioso/espiritual. Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo). 2007;34:126-35.

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