Mandalas Terapêuticas: uma ferramenta de desenvolvimento humano.

Adriana Splendore

Qualquer desenho realizado dentro de um círculo é considerado uma Mandala, e pode ser analisado a partir das formas, cores e símbolos que ali foram representados. Trata-se de uma poderosa ferramenta de desenvolvimento pessoal, utilizada como instrumento terapêutico por Jung, Nise da Silveira, Joan Kellogg, dentre outros especialistas.

Ao desenhar uma Mandala, obtém-se uma expressão plástica que representa a tentativa de ordenar imagens oníricas que emergem do inconsciente; é um espaço criativo que estimula a reestruturação da saúde mental.

Jung observou a criação espontânea de mandalas por seus pacientes e observou que isso marca o momento de reintegração da psique (Jung, 1959). A criação de mandalas é uma forma de meditação em ação. Conforme a pessoa vai criando seu desenho mandálico, ela passa por experiências transformadoras, estimulando o processo de autoconhecimento.

Segundo Joan Kellogg, quando construímos mandalas, sejam estas construções conscientes ou inconscientes, facilita-se a cura de nossas feridas, ajudando a desintegrar o que não é bom para a nossa existência, e reintegrando nossa personalidade à nossa essência (Kellogg,1977).

O fazer artístico devolve a liberdade à alma aprisionada pelo vazio, pelo medo ou, ainda, pelos sentimentos não nomeados.

A escolha das cores também é expressão de estados psíquicos. Kandinsky – considerado o pai da arte abstrata – faz um dos estudos mais importantes sobre as cores, em seu livro “Do Espiritual na Arte”. Para ele, quanto mais o indivíduo é evoluído espiritualmente, mais sensível aos efeitos psíquicos das cores ele será. Ele afirma que a cor é uma energia que influencia diretamente a alma (Kandinsky, 2000).

A publicação de estudos que evidenciam a eficácia da criação de mandalas como ferramenta terapêutica vem aumentando progressivamente, e esse método demonstrou sua eficiência no tratamento de quadros de:

  1. déficit de atenção e hiperatividade (Smitherman-Brown & Church, 1996 apud. Henderson; Rosen & Mascaro, 2007);
  2. demência (Couch, 1997);
  3. esquizofrenia, psicose e transtornos dissociativos (Cox & Cohen, 2000 apud. Henderson; Rosen & Mascaro, 2007);
  4. redução da ansiedade (Curry & Kasser, 2005);
  5. humor negativo (Babouchkina e Anastasia, 2015).  

Um estudo realizado em 2005 e replicado em 2012, publicado no Journal of the American Art Therapy Associantion, questionou a eficiência de colorir mandalas para a redução dos sintomas de ansiedade. Formaram-se três grupos: um colorindo mandalas prontas, um colorindo desenhos geométricos, e um com desenho livre. As evidências apontam que o grupo que coloriu mandalas teve uma redução nos sintomas da ansiedade. (Curry & Kasser, 2005 / Vennet & Serice, 2012).

Participo do Grupo ProSer desde 2010, quando identificamos a necessidade de um trabalho assistencial embasado na Medicina Integrativa, que abordasse conteúdos ligados a espiritualidade/religiosidade com os pacientes internados.


Figura 1
Mandala feita por paciente da enfermaria (ECIM) na sua última semana de internação

Apresentei um projeto piloto das oficinas de Mandalas Terapêuticas em 2012, junto ao Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, na Enfermaria de Compulsão Alimentar (ECAL), atendendo pacientes com quadros severos de anorexia e bulimia: internações de longo prazo, com declínio cognitivo e embotamento emocional. Nesta oportunidade, observamos resultados importantes após a realização das oficinas, auxiliando o enfrentamento da doença e promovendo maior bem-estar ao paciente durante a internação. 

Em 2013 um novo projeto foi aprovado junto ao IPQ-FMUSP, e as oficinas de Mandalas Terapêuticas foram aplicadas na Enfermaria de Ansiedade e Depressão (EAND). Na sequência, em 2014, na Enfermaria de Comportamento Impulsivo (ECIM) e, por fim, em 2015, no Ambulatório Geriátrico (PROTER).

No decorrer das oficinas, foi possível observar as propriedades integrativas das mandalas, estimulando o autoconhecimento, e o aumento das emoções positivas, auxiliando o processo psicoterápico.

Criamos Workshops de Mandalas Terapêuticas em 2018, e a demanda foi tão positiva que nos motivou a implantar em 2020 a primeira Formação Integrativa em Mandala Terapêutica e Espiritualidade, realizada dentro do Instituto de Psiquiatria, com o objetivo de formar profissionais aptos a utilizarem as mandalas como ferramenta terapêutica no contexto do processo psicoterápico.

Figura 2
Workshop de Mandalas Terapêuticas e Espiritualidade (2019)

REFERÊNCIAS      

  • BABOUCHKINA, Anastasia; ROBBINS, Steven J. Reducing negative mood through mandala creation: A randomized controlled trial. In: Art Therapy, v. 32, n. 1, p. 34-39, 2015.
  • COUCH, Janet Beaujon. Behind the veil: Mandala drawings by dementia patients. In: Art Therapy, v. 14, n. 3, p. 187-193, 1997.
  • CURRY, Nancy A.; KASSER, Tim. Can coloring mandalas reduce anxiety? In: Art Therapy, v. 22, n. 2, p. 81-85, 2005.
  • DELUE, Carol H. Physiological Effects of Creating Mandalas. In: Medical Art Therapy with Children, Cathy A. Malchiodi (Ed.). Jessica Kingsley Publishers Ltd.: Londres, p. 33-51, 1999.
  • FIORAVANTI, Celina. Mandalas: Como Usar a Energia dos Desenhos Sagrados. Editora Pensamento: São Paulo, 2003.
  • HENDERSON, Patti; ROSEN, David; MASCARO, Nathan. Empirical study on the healing nature of mandalas. In: Psychology of Aesthetics, Creativity, and the Arts, v. 1, n. 3, p. 148, 2007.
  • JUNG, Carl Gustav. Mandala Symbolism. In: Vol. 9i Collected Works. Princeton University Press, 2017 (Trabalho original publicado em 1959).
  • JUNG, Carl Gustav. Chegando ao inconsciente. In: O homem e seus símbolos. 3 ed. Carl G. Jung (Org.). HarperCollins Brasil: Rio de Janeiro, 2016.
  • KANDINSKY, Wassily. Do espiritual na arte. 3 ed. Martins Fontes: São Paulo, 2000.
  • KELLOGG, Joan et al. The use of the mandala in psychological evaluation and treatment. In: American Journal of Art Therapy, 1977, p. 123-134.
  • NAUMBURG, Margaret. A arteterapia: seu escopo e sua função. In: Aplicações clínicas dos desenhos projetivos. E. F. Hammer (Org.) São Paulo: Casa do Psicólogo, 1991, p. 388-392. 
  • OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. 18 ed. Vozes: Rio de Janeiro, 2004.
  • SILVEIRA, Nise da. O mundo das imagens. 1 ed. Ática: São Paulo, 1992.
  • SILVEIRA, Nise da. Imagens do Inconsciente. Alhambra: Rio de Janeiro, 1981.
  • PALMER, Victoria J.; DOWRICK, Christopher; GUNN, Jane M. Mandalas as a visual research method for understanding primary care for depression. In: International Journal of Social Research Methodology, v. 17, n. 5, p. 527-541, 2014.
  • PISARIK, Christopher T.; LARSON, Karen R. Facilitating college students’ authenticity and psychological well‐being through the use of mandalas: An empirical study. In: The Journal of Humanistic Counseling, v. 50, n. 1, p. 84-98, 2011.
  • SCHRADE, Crystal; TRONSKY, Loel; KAISER, Donna H. Physiological effects of mandala making in adults with intellectual disability. In: The Arts in Psychotherapy, v. 38, n. 2, p. 109-113, 2011.
  • SLEGELIS, Maralynn H. A study of Jung’s mandala and its relationship to art psychotherapy. In: The Arts in Psychotherapy, 1987, p. 14.
  • VAN DER VENNET, Renée; SERICE, Susan. Can coloring mandalas reduce anxiety? A replication study. In: Art therapy, v. 29, n. 2, p. 87-92, 2012.

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